25 de maio de 2012

As Palavras que das Margens Gritam

The Thin Red Line - Terrence Malick


E que ouço eu

que escrevo eu

que ossos são estes que rangem de noite

que mar é este que não nos deixa dormir

que cidade é esta que outrora nos fez feliz

que ruas

que alamedas

que jardins

onde passámos sem medo

que portas onde entrámos para fazer amigos

que templos estes em que cantámos ingénuos

a alegria sem fim

que vozes antiquíssimas

que rumores espectrais

nestes barcos à deriva

estes braços

estes abraços

estes mastros distantes

estas velas cheias de silêncio

Estas praias nas veias

a sagrada euforia da infância

éramos tão felizes eu e tu

parecíamos florir constantemente

num movimento centrípeto

os corpos completos

semeados pelos lençóis

agora paro e choro

reconheço a obscuridade do meu nome

separado pelo grande rio

confesso às águas desta margem

a melancolia que me sinaliza a vida como um chicote

os olhos de verde sépia

são antigas aves

cobertas de nevoeiro

meus pais

meus avós

meu irmão

meus soberanos

minhas artes que se partem em frente ás vagas

assinalam a próxima viagem

já sem o corpo

crepúsculo a anos luz da de qualquer coisa conhecida

uma matéria fantasmagórica

em direcção ao total esquecimento

flores nocturnas

estrelas cadentes

relâmpago que explode sobre a falésia

quase a sonhar





4 comentários:

Isa Lisboa disse...

Um grito triste, mas sentido!

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lídia Borges disse...

Belíssimo este dizer- viagem circular de perda em perda até ao fim, até ao início.

L.B.

© Piedade Araújo Sol disse...

enigmas por desvendar.

muito bom1

um beij