23 de dezembro de 2010

20 de dezembro de 2010

Por Outro Lado a Sombra

"Caramel" - Nadine Labaki

Por outro lado a sombra
Contrapeso dos ossos e da carne com os seus nós de marinha avisada do mau tempo
o nojo e a insónia para cortar à dentada
o tempo aberto à boca da desolação
poderia ser uma praia para escorrer a palavra errada
carícia penetrante e funda por dentro
Se
alguma vez regressasses para seres quem sonhas ser
Compreenderias o luar partido pela cintura
E o país de clepsidras destruídas onde atravesso a rua como um gato marginal
As águas que surgem dos bolsos rotos das nuvens
Movem as sombras paralelas aos rostos
Alimentam a noite por dentro
veleiro breve e luminoso
baunilha
piano
fantasma e engrenagem
Sexo de espuma partida contra a praia sem nome e sem pressa
A pele exposta á evidência das horas inquietas
Digo ás minúsculas contracções do coração convém
O mais alto céu dos que se despem em flor e desassossego.




22 de novembro de 2010

Improviso


Hiroshi Teshigahara - "The Women In The Dunes"


Se morrêssemos de improviso

Atravessando todo o amor do mundo sem tropeçar em ninguém

E queimássemos as histórias que não existiram

Até que a verdade bastasse à boca

E as águas feridas dessem a sua dor

Como esmola á carne do esquecimento

Quanto encontraríamos de nós

E quanto sobraria para desaparecer

Até sermos eternamente

Um.

27 de setembro de 2010

Pedaços

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Bill Viola - "The Fall Into Paradise"


Pedaços de doçura
bátegas de água fina
luz dos olhos
cascata de alegria precipitada sobre os filhos
deitados ao comprido da vida
põem-se a escorrer poemas
gota a gota
desfraldam-se do âmago de suas mães
nascem para o primeiro dia do mundo
ressoam nas profundas cavidades do amor
depois crescem violentamente para outras mulheres
são o vento que movimenta o coração da palavra
ao abrir-se em espelho na pele mordida pela serpente da melancolia
antes da terrível dor do esquecimento
mergulhada na noite transfigurada
e quando se diz transfigurada quer-se dizer
onde o falso lugar deixou a cara pútrida
a memória desossada
que bate na areia
bate na cabeça e no ouvido do coração
bate para escutar a profundidade do mar
canta suavemente debruçada sobre as algas
rodilhas na maré alimentada pelo sonho
pequenos seixos translúcidos
feixes de luz semeados pelo vento
fios de sal
tinta de pintar navios ardentes
estruturas perplexas onde florescemos
tão esplêndidos
tão frágeis…

13 de setembro de 2010

O Corpo das Palavras















Paul Cezzane - "Nature morte avec rideau et pichet fleuri"



As palavras elevavam-se à altura dos olhos
para desvendarem o verdadeiro coração das coisas
eram crianças desembrulhados de suas mães
no nevoeiro da sua juventude
as cordas da ausência
magoavam as velas do velho barco
e o seu corpo cheio de naufrágios
era o areal onde podíamos beber da nossa fonte
a água secreta
uma linguagem que mais não era
do que o pensamento desenhado no ventre emocional
um poema encharcado de verdade consubstanciada
se ao menos a pele trespassada fosse um caminho
ou um abismo que se abismasse
e com as coisas mais inesperadas
perguntasse
e se elas fossem boas e brilhassem
como laranjas habitadas de Primavera.




7 de setembro de 2010

Chuva

Don Hong-Oai - "After Prayer"




Perfurávamos o papel branco

para que a palavra doesse ao impacto da boca

e a língua num firmamento de astros

fechada saísse para a rua

para gritar o trabalho fundo do poeta

certamente não sabíamos ainda dize-la

mas poderíamos encontrá-la

em cigarros de linho incendiados pelo sonho

ou na nuvem onde o olhar um dia

encontrou a luz da ínfima alegria

na chuva.

14 de julho de 2010

O Lugar Preciso

Chen Bi Cong - "Sleeping Nude XV"


Poder-se ia dizer

que se a língua fosse o lugar preciso de todos os silêncios

seria como um coração fechado para obras

o degrau que sobe para a noite a escadaria do seu bater.

29 de junho de 2010

Este Coração que Escreve

Paulo Nozolino


Este coração que escreve

não é um passo afundado na garganta do esquecimento

este coração é a elipse e o trompe l`oeil

uma catedral barroca de ardente sinfonia

é a mão que embala o sangue e forma o rio da palavra

é o peixe no branco oceano

onda de papel essencial

o peixe letra talhado pela melancólica caneta

este coração que escreve

é uma máquina queimada pelo sonho

uma gota de suor na máscara do homem que pensa

a nuvem que salga o mar de azul

sendo uma constelação de água que escorre silente

é também a raiz cujo peso é somente firmamento onde 

uma borboleta de estrelas movimentando-se nos dedos

um trabalho delicado na paisagem vulcânica

bisturi sobre o corpo das palavras rebentadas no verbo

a carne dividida pelo estremecimento da voz

exclama a terra anoitecida

balança musical onde

este coração é osso crepuscular do tempo

um relógio cantante desalojado de seus ponteiros

calendário á procura do teu rosto

alastrado pela ausência.

21 de junho de 2010

Condição Humana



"Estudos Sobre o Corpo Humano" - Francis Bacon

Pressupõe-se fotográfico o pincel da memória
mas o homem que fortifica com o seu próprio sangue
a trave mestra da sua casa
abre o coração do quarto
onde escureceu e floriu
e da sua própria ternura
luminosa terra
grita um corpo coberto pela melancolia da palavra.

Nos seus ombros duas lâmpadas
pérolas de néon
para abrir caminho ás águas
olhos
que foram antes o futuro e a carne finita
da condição humana.

18 de junho de 2010

Os Dias



"Pai e Filho" - A. Sukorov

Os dias
como pedras ardentes
pequenos embrulhos silenciosos no patamar do tempo
avisos nocturnos
películas onde oscila claramente uma ideia
a estrada até aos teus amigos é um voar de falcões estelares
e morcegos diurnos que amparam os braços sem corpo
deflagrado pela impaciência da madrugada
uma cabeça como um chicote vital para o acordar
a voz das coisa desaparecidas
é um jardim primordial com flores absolutas.

8 de junho de 2010

Atada ao Coração



Aniello Scotto - "Ecce Homo"

Atada ao coração a palavra
esconde-se nos finos cordéis do tempo
o mar salpica lentamente o horizonte
as unhas da noite enfurecidas
aparafusam a ultima fímbria de luz
ao peito da lua
a caneta violenta volta a abrir a carne do verbo
o meu único oficio
para uma vida mais digna

Só um Relâmpago Queimaria Aqueles


Fernando Lemos - "Auto-retrato"

Só um relâmpago queimaria aqueles
que brevemente atravessaram a tua boca
como cães brilhantes surgiriam no extremo da lua cheia
onde a porosa água que ilumina a pele
é a brancura da escrita que desfaz os nós
e a letra caligrafada nos espelhos terríveis
cordas de virar páginas para nos decifrarmos melhor
é então que apetece á tempestade o instante mais fulgurante
a cidade esticada no limite dos que sonham a sua vertigem
tinhamos então
não duas mãos
mas uma fogueira para ardermos juntos.