6 de setembro de 2011

O dia da Noite




Um pássaro treme às primeiras horas do dia
acorda o corpo devorado pela violência do sonho
neste quarto cheio de gavetas
onde guardámos a memória para o último dia
se eu fosse uma ponte talvez pudesse visitar-te
mas agora tudo é diferente
levanto-me de boca salgada
calada
olho a cidade desértica
abro os braços que dão acesso ao peito
exponho os órgãos internos
já não tenho pele
não posso mentir
sou mais belo
estou mais perto de ti
tenho em mim o susto das marés
e o peso da água que se fez nuvem
flutuo como o poema
que do livro deixou a branca página
para ser o teu jardim
sou lágrima de passagem
na paisagem
serena e absoluta visão
da noite no meu coração por ti.


4 comentários:

Eva Gonçalves disse...

Nunca tenho grande jeito para comentar poesia mas gostei. Cumprimentos

© Piedade Araújo Sol disse...

este poema está muito bom e além disso descobri que se pode ler também de outra maneira.

de baixo para cima, não perde o sentido e fica bom na mesma.

é uma maneira minha de ler poesia, mas leio sempre das duas maneiras.

parabéns por este trabalho.

um beij

Vieira Calado disse...

Obrigado pelas suas palavras no meu blog.

** Gostei do seu poema.

Um abraço

Carlos Ramos disse...

Não costumo comentar os comentários, mas realmente, merece uma pequena excepção, para agradecer à Piedade a descoberta desta nova funcionalidade, debaixo para cima.... realmente nunca tinha reparado que existe também essa nuance. Obrigado