20 de setembro de 2012

Transformado em Árvore Enraízo-me




 Transformado em árvore

enraízo-me e tremo ao vento

o rosto debruado a folhas

as mãos como troncos prometidos á Primavera

abrem-se para sentir

falo de uma fúria que se abate no centro

e sinto a feroz fechadura do tempo

que nos rouba o futuro

mesmo assim

passeio o sonho aberto pela insónia

solenemente desço as escadas

abro os mapas conhecidos da noite

coberta de melancolia

navego pelas horas delicadas e silenciosas

escrevo o fogo interior que impõem a luz

para que possa pousar o breve pássaro da paixão

privilégio ácido

um acidente cortante

um espasmo que pode causar horror

e muita insensatez

não quero que o compreendam

não isso não

teria de admitir que estou correcto

chegaria a causar horror perante vós

suponho que a porta bateria

não admitiriam mais a sua presença

e a minha ausência notar-se-ia extremamente

por isso digo aos que nas zonas profundas

constroem o seu abrigo

aqueles cujos corpos levantam voo

para formarem nuvens

desses sou a flor que espera a chuva

2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

re-nascer sempre

e a esperança é verde.

poema muito bom.

beij

Canto da Boca disse...

O poema me chega todo em tom confessional. Com uma profunda inquietação, e esta perpassa a esfera do silêncio, chegando em ondas sonoras, "obrigando-nos" a nos escutarmos também.
Um poema cerebral, eu diria, pois nenhuma metáfora está aqui à toa.

Vim do blogue do Manel (Pé de Meia).

:)