4 de novembro de 2011

Identidade

Zabriskie Point - Michelangelo Abntonioni


Em silêncio o coração estremece a terra em que o amor amadurece

em silêncio o seu fruto irrompe do tronco onde se formam as estações

agora é a chuva que percorre as veias onde o fogo construiu a sua casa

agora o tempo é um rio luminoso

que corre para a vida e o futuro da vida

uma cama á largura do sonho onde acorda o mar

que de espuma me levanta para os dias contigo

e tu que de frente ou de costas deixas entrar o sol no corpo

o céu que atravessa a garganta e me dá a cor aos olhos

há tanto tempo meu amor

que és o meu Nome

que agora sou apenas uma nuvem comovida

fincada em ti

gota a gota

florida.

28 de outubro de 2011

A Cidade Perdida




Caminhas como um fósforo por arder

a cabeça ácida

o coração descosido

pelo gatilho do assombro

eis os dedos difusos

a mão estilhaçada

eis a arma do estremecimento

eis como palpita o revólver por dentro

um músculo dorido depois do esforço

estremece com minucia o coração

nota-se que a pele já não o protege

vislumbra-se a verdade

e o sangue

que invade as entranhas como matéria nocturna

através do tecido rasgado pela vertigem

vem à boca do céu

desprendem-se  luzes

caiem ainda vivas

sobre o rosto do mar lavrado pelo mau tempo

e o corpo assim exposto à desordem do sonho

acorda a cidade salgada

segue os teus passos

mas tu nunca chegas

nem compreendes.

20 de outubro de 2011

18 de outubro de 2011

Partitura

Julie de Varoquier


Vou ao encontro de me esperar


onde me basta a excessiva lucidez

da invisível presença

13 de outubro de 2011

Transfiguração

Man Ray


Corríamos para a água

atirávamos para lá os corpos

para dela receberem a luminosa transparência

assim

se derramava o destino

sobre os corações e as ondas

assomavam-se agora a tempo

de na praia

desenharem as nuvens

a nossos pés.

12 de outubro de 2011

Um Rosto Rigoroso

(Ao Miguel Rovisco)



Antes da Eternidade

apareceste tu de cara destapada

de corda ao pescoço para receber o prémio

um homem dentro de um aquário pode fazer explodir o universo

debaixo de um comboio

um corpo evidenciava essa tempestade.


 

4 de outubro de 2011

O Mundo



Entre os lábios

que sabem o meu nome

eu e tu

sobre os lençóis da tarde

vem o corpo apertar-se ao poema

a língua na pele é um pormenor

com ela entramos

escrevemos

nesse corpo extraído

não à carne violenta do abraço

mas ao abismo suspenso da ferida

entre os lábios

que são dos astros as raízes da noite

e os alicerces do dia

dormindo fervilhamos

com as folhas que de sonho ardem.

30 de setembro de 2011

A Graça

Fotograma - "Au Hazard Balthazar" de Robert Bresson



Devorada a fome

já podes acordar

possivelmente já não precisarás dos ossos

para puderes incondicionalmente ser corpo

não precisarás da pele porque o coração

é a grande ponte que une a eternidade ao momento

não precisarás de ninguém excepto de todos

todos dentro de ti

todos por ti

murmúrio profundo do anjo

mãe espírito e pão

em ti.

14 de setembro de 2011

Cortas a Boca do Tempo

Jan Blencowe


Cortas a boca do tempo

para poderes dizer

a intima festa da palavra

faz-se sem o corpo

dos limites das mãos

à rebentação nos olhos

o coração é mar

as ondas perfuram o silencio

como estacas na pele

verte a maré

o sangue todo

âncora em fogo

a cabeça entre as mãos

e o sémen sentido

8 de setembro de 2011

A Flor por Dentro

Foto: Lou Reed


Há quem não queira a flor por dentro

há quem não queira o mar conjugando verbos

e sílabas contra os rochedos da minha cabeça

há quem não queira o Poeta

porque o Poeta é um grande terramoto de água

e a sua cabeça uma vida inteira e um só Poema

o Poeta inteiro é um só Poema

a lua enrola-se nos seus dedos formidável

a lua cheia de casas prodigiosas

com portas astrais abrindo ao infinito musical do firmamento.