6 de setembro de 2011

O dia da Noite




Um pássaro treme às primeiras horas do dia
acorda o corpo devorado pela violência do sonho
neste quarto cheio de gavetas
onde guardámos a memória para o último dia
se eu fosse uma ponte talvez pudesse visitar-te
mas agora tudo é diferente
levanto-me de boca salgada
calada
olho a cidade desértica
abro os braços que dão acesso ao peito
exponho os órgãos internos
já não tenho pele
não posso mentir
sou mais belo
estou mais perto de ti
tenho em mim o susto das marés
e o peso da água que se fez nuvem
flutuo como o poema
que do livro deixou a branca página
para ser o teu jardim
sou lágrima de passagem
na paisagem
serena e absoluta visão
da noite no meu coração por ti.


17 de agosto de 2011

Sei de uma Forma

Olof Grind

Sei de uma forma que em mim se desampara

no minuto imenso da breve alegria

recorda a paisagem que foi deslumbramento

luzes que só por dentro se viam

não eram terra

nem eram céu

eram a casa incendiada onde dançávamos

como estrelas que à distancia

uma para a outra brilhavam

Felizes Juntos

 Sean Marc Lee


Se quiseres podes deitar-te no meu poema
fumar o meu nome
letra a letra
aceito desfazer-me em nuvem de fumo
e dentro da tua boca
acabar ingénua e milimetricamente no infinito.

16 de agosto de 2011

Eixo do Mundo


Robert Doisneau - "The Celist"


Com o corpo em sonho

sobes a escadaria da tristeza ou da alegria

fechas a janela que dá acesso ao rosto

iluminado pela fragilidade da noite

a chuva inquieta

quebra o silencio

que à transparência do vento

precipita na liquida paisagem

a musica

que das nuvens é

o eixo profundo

do mundo.



27 de junho de 2011

Corpo Iluminado

"Vivre Sa Vie" - Jean Luc Godard


Há um grande rigor naquilo que abre a pele

uma enorme falésia onde o mar rebenta

e regressa depois à ferida que através da roupa

fina e ensopada é do sol a praia e a luz do corpo.

17 de junho de 2011

Vortex



Pedia de esmola um poema

mendigava o verdadeiro pão

partilhava o coração

para fugir ao menino assustado que era

regressava de onde sempre irá partir

absolutamente anónimo

trabalhando para a minúscula alegria

alimentava a árvore que à noite floria

como um amiga verdadeira

profundíssima na sua carne

e a arvore agradecida

era nos braços do vento a palavra

que com os seus ramos

falava ás estrelas

15 de junho de 2011

Um Pássaro Entra



"The Winged Man" - Odilon Redon



O poema precisa do mínimo conforto dos teus olhos

para o tornar vivo

bastaria um pequeno copo de água
iluminado

iluminando-me

iluminando-te

lâmpada na mais densa treva

branca lamina de luz celeste

como um lençol de estrelas

as mãos do mar

abrem a janela do dia

um pássaro entra e estilhaça-se azul.


 

9 de junho de 2011


Jeffrey Michael Harp

Os cabelos algam o rosto de mar

os olhos feridos de distancia

depenham-se pele abaixo

como um vulcão

puros e salgados

escorrem pelo coração.

8 de junho de 2011

Fragil Paisagem

Luis Beltran

A casa entardecia
a ténue luz abria a porta à língua
que movimenta-se ao longo do papel
escrevia a espuma o poema
onde de mãos dadas flutuávamos




7 de junho de 2011


Um barco inclina-se para o silencio

onde uma mulher sentada

espera dentro do poema as minhas mãos

assim seja a casa de que fugia o coração