Um pássaro treme às primeiras horas do dia
acorda o corpo devorado pela violência do sonho
neste quarto cheio de gavetas
onde guardámos a memória para o último dia
se eu fosse uma ponte talvez pudesse visitar-te
mas agora tudo é diferente
levanto-me de boca salgada
calada
olho a cidade desértica
abro os braços que dão acesso ao peito
exponho os órgãos internos
já não tenho pele
não posso mentir
sou mais belo
estou mais perto de ti
tenho em mim o susto das marés
e o peso da água que se fez nuvem
flutuo como o poema
que do livro deixou a branca página
para ser o teu jardim
sou lágrima de passagem
na paisagem
serena e absoluta visão
da noite no meu coração por ti.







