Malevich - "Black Square"
HÁ COISAS QUE SÓ SE VIVEM, OU ENTÃO, SE INSISTIRMOS EM AS DIZER, É NECESSÁRIO FAZÊ-LO EM POESIA. Pier Paolo Pasolini. Este Blogue não seguirá, por respeito à Língua Portuguesa, o designado "acordo ortográfico"
20 de fevereiro de 2012
17 de fevereiro de 2012
10 de fevereiro de 2012
Carteira Profissional
Agora que voas
e que deixaste em paz os teus 12 leitores
agora que desapareceste como o teu cão
sem mais palavra
e mataste essa ideia perigosa de publicares livros
agora que és livre de todos os empecilhos
de todas as máquinas que te comandavam o corpo
de todas as âncoras
de todos os portos
de todos os barcos
de todos os mares
agora que és maravilhoso e atmosférico
agora que as nuvens fazem com teus dedos
frase no céu que ninguém lê
agora que o teu peso se resume
ao de uma pluma celeste
numa folha de tempo
ou a uma simples torção do vento que sonhando
tudo divide e multiplica
tudo divide e multiplica
agora que tudo é exponencialmente nada
mistério mais límpido que a mais pura luz
agora sim
tu és escritor
e já podes falar.
7 de fevereiro de 2012
A Madrugada
Andre Kertesz - Polaroids
A madrugada aos pedaços
mas já sem os teus passos
prepara-se para beijar de novo o dia
o mundo descalço estica os braços
para o corpo das estrelas e não te alcança
6 de fevereiro de 2012
Amargo Novembro
O vento encostava-se às casas e adormecia
depois viam-se os brancos ossos da noite
carregarem a insónia por debaixo da porta
nesse lençol escuro procurávamos o sublime
que resplandecia ocasionalmente quando fechávamos os olhos
e a respiração acertava os passos do coração
as mãos desfraldavam-se como nuvens no céu
não esqueças as minhas mãos
e os toscos dedos que acendiam de cor os teus cabelos
para que se visse a ternura do infinito contra o peito
nada mais era preciso que o límpido sopro
da lua desfiada pelo corpo
até que sobre o pescoço já não se erguesse do rosto
demência para sonhar
a linha do horizonte
cozida á pele
como lápide de sal
masmorra de total silêncio
o sal para tudo devastar
o silêncio para sepultar
as folha de Outono
que das árvores tristes se desprendem
nas ruas de Novembro.
19 de janeiro de 2012
O Anjo Caótico
Com estas mãos que escreveram o teu nome e não duvidaram
chamavas-te noite e eras minha
o teu rosto uma multidão de estrelas de passagem
luzes que do céu fizeram a miragem
caída em terra agreste
do celeste fogo só sobraram
os estragos grandes e vastos da falsa Primavera
e mesmo assim a árvore floriu difícil
deu um fruto só e lágrimas orvalharam a folhagem
de verde sangue o corpo penetraram fundo
o poema áspero a negro desenhado
do ido que não foi no já agora.
13 de janeiro de 2012
O Anjo Magnifico
Um poema
bate á porta e acorda o Poeta
o Poeta levanta-se
abre a porta
olha no escuro
observa
fios de chuva
como braços gigantes
abruptamente esplendidos
descem vertiginosos
descem vertiginosos
uma gota de água bate no chão
desfaz –se em inúmeras outras
milhões de pequenas luzes
reflectem o que do céu trouxeram
em harmonia perfeita
em harmonia perfeita
os teus pés
molhados com luzes do céu
não são daqui
11 de janeiro de 2012
Pena Sou
Pena sou
e de mim não tenho
porque te vi voar
pena de rubra ave
por cima das falésias
não te pôde acompanhar
pena sou
e de mim não tenho
corpo para abraçar o teu
espírito espírito do meu
corpo corpo do teu
pena sou
e de mim não tenho.
27 de dezembro de 2011
Perfil e Ultimo Sonho

Frank Picini
É manhã e o sol chama um nome feminino
que pela janela lança a luz do dia
as horas firmes como braços musculados
mostram do tempo a profunda nostalgia
frutos abertos e perfumados
vestem o corpo
se pudéssemos voar seriamos gomos desses frutos
e raíz
e finalmente arvore e festa
e promessa cumprida ao céu
da terra iluminado pelo incendio do azul do mar
23 de dezembro de 2011
Sobre o teu corpo de alecrim
Sobre o teu corpo de alecrim
um peixe com o meu nome
brilha no centro
não sei como exprimi-lo
mas mesmo assim
lanço uma corda aos Deuses
e trepo pela noite acima até à origem
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