17 de fevereiro de 2012

Wild Rose



 
À flor


o que à flor pertence


não a terra


mas as estrelas


em flor


o que é celeste


na terra


é céu


10 de fevereiro de 2012

Carteira Profissional



Agora que voas

e que deixaste em paz os teus 12 leitores

agora que desapareceste como o teu cão

sem mais palavra

e mataste essa ideia perigosa de publicares livros

agora que és livre de todos os empecilhos

de todas as máquinas que te comandavam o corpo

de todas as âncoras

de todos os portos

de todos os barcos

de todos os mares

agora que és maravilhoso e atmosférico

agora que as nuvens fazem com teus dedos

frase no céu que ninguém lê

agora que o teu peso se resume

ao de uma pluma celeste

numa folha de tempo

ou a uma simples torção do vento que sonhando

 tudo divide e multiplica

agora que tudo é exponencialmente nada

mistério mais límpido que a mais pura luz

agora sim

tu és escritor

e já podes falar.


7 de fevereiro de 2012

A Madrugada

Andre Kertesz - Polaroids


A madrugada aos pedaços


mas já sem os teus passos


prepara-se para beijar de novo o dia


o mundo descalço estica os braços


para o corpo das estrelas e não te alcança


6 de fevereiro de 2012

Amargo Novembro




O vento encostava-se às casas e adormecia

 depois viam-se os brancos ossos da noite

carregarem a insónia por debaixo da porta

nesse lençol escuro procurávamos o sublime

que resplandecia ocasionalmente quando fechávamos os olhos

e a respiração acertava os passos do coração

as mãos desfraldavam-se como nuvens no céu

não esqueças as minhas mãos

e os toscos dedos que acendiam de cor os teus cabelos

para que se visse a ternura do infinito contra o peito

nada mais era preciso que o límpido sopro

da lua desfiada pelo corpo

até que sobre o pescoço já não se erguesse do rosto

demência para sonhar

a linha do horizonte

cozida á pele

como lápide de sal

masmorra de total silêncio

o sal para tudo devastar

o silêncio para sepultar

as folha de Outono

que das árvores tristes se desprendem

nas ruas de Novembro.



19 de janeiro de 2012

O Anjo Caótico



Com estas mãos que escreveram o teu nome e não duvidaram

chamavas-te noite e eras minha

o teu rosto uma multidão de estrelas de passagem

luzes que do céu fizeram a miragem

caída em terra agreste

do celeste fogo só sobraram

os estragos grandes e vastos da falsa Primavera

e mesmo assim a árvore floriu difícil

deu um fruto só e lágrimas orvalharam a folhagem

de verde sangue o corpo penetraram fundo

o poema áspero a negro desenhado

do ido que não foi no já agora.

13 de janeiro de 2012

O Anjo Magnifico



Um poema

bate á porta e acorda o Poeta

o Poeta levanta-se

abre a porta

olha no escuro

observa

 fios de chuva

como braços gigantes

abruptamente esplendidos

descem vertiginosos

uma gota de água bate no chão

desfaz –se em inúmeras outras

milhões de pequenas luzes

reflectem o que do céu trouxeram

em harmonia perfeita

os teus pés

molhados com luzes do céu

não são daqui


11 de janeiro de 2012

Pena Sou



Pena sou

e de mim não tenho

porque te vi voar

pena de rubra ave

por cima das falésias

não te pôde acompanhar

pena sou

e de mim não tenho

corpo para abraçar o teu

espírito espírito do meu

corpo corpo do teu

pena sou

e de mim não tenho.

27 de dezembro de 2011

Perfil e Ultimo Sonho


Frank Picini


É manhã e o sol chama um nome feminino

que pela janela lança a luz do dia

as horas firmes como braços musculados

mostram do tempo a profunda nostalgia

frutos abertos e perfumados

vestem o corpo

se pudéssemos voar seriamos gomos desses frutos

e raíz

e finalmente arvore e festa

e promessa cumprida ao céu

da terra iluminado pelo incendio do azul do mar



23 de dezembro de 2011

Sobre o teu corpo de alecrim



 
Sobre o teu corpo de alecrim

 um peixe com o meu nome

brilha no centro

não sei como exprimi-lo

mas mesmo assim

lanço uma corda aos Deuses

e trepo pela noite acima até à origem