4 de outubro de 2012

No Bravery

Bad Lieutenant - Abel Ferrara


Cair a teus pés

como a palavra cai

quando procura o seu significado

agradecer-te

e pedir-te perdão

por aceitares a serpente e o coração.

1 de outubro de 2012

Virgula de Néon




Preencho


o espaço terrível que nos separa


com as estrelas ao meu alcance


faço-as crescer vibrar e gemer


inclino-as brevemente sobre o teu corpo


para que te iluminem o sonho


com essa polegada de luz


acendida na imensidão da ausência


fabrico poemas a granel


pode-se dizer que fornico com a impossibilidade


é tão pouca toda a vida


para a desordem do sangue


brilhante vírgula de néon


no passaporte manchado por viagem nenhuma

27 de setembro de 2012

Além da Deflagração dos Olhos

Egor Shapovalov


No esquerdo o céu

no direito o mar

ao centro o coração limpo e nu

os pulmões cheios de nuvens

e a boca a sonhar

26 de setembro de 2012

Notas Inuteis




Sacudir o sonho


como um resto de pó


de um velho casaco


para que a pele guarde no silêncio


a sua cicatriz


mas no mesmo sitio


vê-se claramente a queimadura


de outra ferida


a pele rasgada pelo impossível


é do corpo a combustão do homem


onde uma mulher terrível


lançou à distância


o seu tenebroso silêncio


desfigurando-lhe o coração


das cinzas férteis


outra surgia lentamente


como a semente adormecida pelo rigor do frio


compreendia a seiva


brotava do chão como uma casa luminosa


ligava a máquina nocturna


onde o homem fabricava as nuvens


e alimentava o miraculoso fruto da paixão


o resto é sémen


lágrima


boca


escuridão

20 de setembro de 2012

Transformado em Árvore Enraízo-me




 Transformado em árvore

enraízo-me e tremo ao vento

o rosto debruado a folhas

as mãos como troncos prometidos á Primavera

abrem-se para sentir

falo de uma fúria que se abate no centro

e sinto a feroz fechadura do tempo

que nos rouba o futuro

mesmo assim

passeio o sonho aberto pela insónia

solenemente desço as escadas

abro os mapas conhecidos da noite

coberta de melancolia

navego pelas horas delicadas e silenciosas

escrevo o fogo interior que impõem a luz

para que possa pousar o breve pássaro da paixão

privilégio ácido

um acidente cortante

um espasmo que pode causar horror

e muita insensatez

não quero que o compreendam

não isso não

teria de admitir que estou correcto

chegaria a causar horror perante vós

suponho que a porta bateria

não admitiriam mais a sua presença

e a minha ausência notar-se-ia extremamente

por isso digo aos que nas zonas profundas

constroem o seu abrigo

aqueles cujos corpos levantam voo

para formarem nuvens

desses sou a flor que espera a chuva

6 de setembro de 2012

Onde Queima o Espirito a Forma Breve




Posso encher a caneta de impossível

inebria-la um pouco

talvez a faça sonhar uma vez mais

a última vez

peço-lhe que escreva no vento

o meu nome

para que esqueça

o futuro que foi presente

um dia com a Primavera na boca

deixei o coração sobre a mesa

para que iluminasse a casa

não poderia dar-te mais

depois parti

nunca fui desse mundo eu sei

e que mundo existe para lá

do pequeno filamento que acende o sonho

que faremos no regresso da viagem

quem nos esperará para lá dos portões

e se pudermos falar

que diremos aos que não podem escutar

tenho tanto medo

de te perder

tenho tanto medo

de não poder pagar o preço

tenho tão pouca fé

por isso digo-te baixinho

para não te magoar

amo-te

gosto tanto de ti

perdoa-me se puderes

hoje estás tão bonita

e mais um barco de tolices

Impróprias para um homem da minha idade

dirão os mais avisados

que perderam a infância em devido tempo

mas eu perplexo indeciso e vagabundo

como um albatroz sobre o mar

olho de cima para tudo isto

sei que este não é o lugar

onde poderemos matar a sede

pousar o corpo

aliviar a febre e o cansaço

e ao peso da sombra

responder com ferocidade

sou possível

e como o aço da lamina

firo

sou possível

mesmo que arda irremediavelmente

serei na tua escuridão

a inquieta brancura das velas

dessa nave que floresce a cada vaga

que procura ainda na vacilante trajectória

um porto seguro

essa casa tão breve

com o orvalho a brilhar por dentro

das pálpebras do luar

e a língua

fogueira a falar

a forma demasiado humana

e plena

este poema



29 de agosto de 2012

Dos Limites



O que permite voar não são as asas mas o sonho

talvez as deixe para trás

como um motor a repousar depois do esforço

ainda tenho as cicatrizes que a lua não sarou

na pele as marcas da dentição do medo

e em cada nervo do corpo

a carne estremece ainda

em equilíbrio precário

os braços como cordas esticadas

tem contudo a tentação dos céus

mas aqui estou misturado com a terra

sem raízes que não sejam

as que das nuvens fazem chegar a chuva

á árvore caída na tentação de florir

do centro da floresta

quero dizer-te o quanto perdido estou

se no teu olhar

não encontro jamais a dimensão do mar.

22 de agosto de 2012

Bailarinos

"Prima Ballerina" - Degas


Doce bailarina

essa estrela que existe porque nela creio

doce bailarino

esse sonho inesgotável

onde um homem escravo da liberdade

também pode ter asas

amado meu

é o pássaro branco

suficiente para ser crista de vaga

o mar pode voar aberto ao meio

não cairá por terra

o mar celeste

como a boca que da palavra é a água que corre

no teu peito

devorado e nu

que seja assim

que venhas assim

em diluvio

como o pássaro salgado

como a flor de prata

no rosto da primeira estrela tremeluzente 

quando termina o dia

na combustão do céu dourado

entre o fim do azul e o inicio do negro

os teus cabelos parecem flutuar misteriosamente

para além de tudo visto

cabelos cheios de murmúrio

 vozes muito finas

vozes na noite intensa

na festa dos astros

lado a lado espalhados

como janelas na casa escura do firmamento

janelas onde podemos brincar com o mundo

esse peão azul

à deriva

na negra e solene imensidão


16 de agosto de 2012

Dublining



Going by bachelors walk

along the boddy of Liffey

taste the morning wind

walk over you

ancient and vibrant stones

enchanted ways

heard a song in the street

…. Ring a ring a rosie

As the light declines…

like a fadding promise

that light is gone

in the mouth of the city

then I went to the Stag`s Head

and I saw at the balcony

Yeats

then I saw Beckett

I´m sure

there`s Joyce, Wild and Behan too

and I looked with a feelin rare

my heart

is now too part of Dublin

in this magic time

19 de julho de 2012

Ouço os Ossos do Corpo

"Blue" - K. Kieslowski


Ouço os ossos do corpo

quebrados violentamente

no trabalho da aprendizagem

daquilo que não somos

a raíz do mundo cortada pela garganta

ainda canta

no começo da vida para lá da vida

não sei como dizer

a minha própria voz

ou como lá chegar

pelos meus passos

sei que nos atravessámos em desordem

uns nos outros

eu em ti como um cavalo assustado

pela rebentação das ondas

tu em mim

como nuvem efémera

na imensa transfiguração do azul .

13 de julho de 2012

Difícil, Cortante e Limpida



Difícil

cortante

límpida

incomparável

a alegria de madrugada

sinto-a a latejar nas mãos

o suor na ponta dos dedos

como um archote

a noite entornada no corpo

que olha pela tranquilidade do teu sono

do ruído cá dentro já não se ouve nada

a não ser o silencioso rosto vergado pela insónia

e o barco de papel

onde viaja o sonho

e as palavras sempre marítimas

as palavra que observam

que florescem como rosas nocturnas

que abraçam e transportam

que respiram dentro de ti

que iluminam

que esmagam

queimam e baptizam

que te batem nas têmporas

destroem a máscara

e alimentam a matéria do poema

são essas palavras

as evidências lunares no corpo

aberto em cruz

e o vermelho dos olhos

como um farol por dentro das pálpebras

difícil

cortante

límpida

e incomparável luz

6 de julho de 2012

Não Peças Desculpa

Abbas Kiarostami


Pelas algemas lunares

pelo incomensurável peso do mar

pelo sal nos olhos

pela cinza na pele

pela insónia que dá à costa do corpo

pelo pássaro sem asas

devastado pela rebentação

pelo coração irregular

pelo medo de perder

o que nunca possuíste

pelas mãos que tremem

no sono convulso

sob as nascentes do sonho

a água musical da vida

pelos anjos que se assomam á janela

dessa casa nocturna

e batem nos vidros da memória

e partem os vidros

e deixam ferida

a vida em fúria indefinida

de punhos cerrados

e olhos fechados

o grito que fica

na mínima partícula

da palavra justa

e pelo gesto desajeitado

não peças desculpa

se não podes alterar o curso do vento

o gotejar do silêncio

na lenta sombra do tempo

nem o sentido

do sentido