29 de agosto de 2012

Dos Limites



O que permite voar não são as asas mas o sonho

talvez as deixe para trás

como um motor a repousar depois do esforço

ainda tenho as cicatrizes que a lua não sarou

na pele as marcas da dentição do medo

e em cada nervo do corpo

a carne estremece ainda

em equilíbrio precário

os braços como cordas esticadas

tem contudo a tentação dos céus

mas aqui estou misturado com a terra

sem raízes que não sejam

as que das nuvens fazem chegar a chuva

á árvore caída na tentação de florir

do centro da floresta

quero dizer-te o quanto perdido estou

se no teu olhar

não encontro jamais a dimensão do mar.

22 de agosto de 2012

Bailarinos

"Prima Ballerina" - Degas


Doce bailarina

essa estrela que existe porque nela creio

doce bailarino

esse sonho inesgotável

onde um homem escravo da liberdade

também pode ter asas

amado meu

é o pássaro branco

suficiente para ser crista de vaga

o mar pode voar aberto ao meio

não cairá por terra

o mar celeste

como a boca que da palavra é a água que corre

no teu peito

devorado e nu

que seja assim

que venhas assim

em diluvio

como o pássaro salgado

como a flor de prata

no rosto da primeira estrela tremeluzente 

quando termina o dia

na combustão do céu dourado

entre o fim do azul e o inicio do negro

os teus cabelos parecem flutuar misteriosamente

para além de tudo visto

cabelos cheios de murmúrio

 vozes muito finas

vozes na noite intensa

na festa dos astros

lado a lado espalhados

como janelas na casa escura do firmamento

janelas onde podemos brincar com o mundo

esse peão azul

à deriva

na negra e solene imensidão


16 de agosto de 2012

Dublining



Going by bachelors walk

along the boddy of Liffey

taste the morning wind

walk over you

ancient and vibrant stones

enchanted ways

heard a song in the street

…. Ring a ring a rosie

As the light declines…

like a fadding promise

that light is gone

in the mouth of the city

then I went to the Stag`s Head

and I saw at the balcony

Yeats

then I saw Beckett

I´m sure

there`s Joyce, Wild and Behan too

and I looked with a feelin rare

my heart

is now too part of Dublin

in this magic time

19 de julho de 2012

Ouço os Ossos do Corpo

"Blue" - K. Kieslowski


Ouço os ossos do corpo

quebrados violentamente

no trabalho da aprendizagem

daquilo que não somos

a raíz do mundo cortada pela garganta

ainda canta

no começo da vida para lá da vida

não sei como dizer

a minha própria voz

ou como lá chegar

pelos meus passos

sei que nos atravessámos em desordem

uns nos outros

eu em ti como um cavalo assustado

pela rebentação das ondas

tu em mim

como nuvem efémera

na imensa transfiguração do azul .

13 de julho de 2012

Difícil, Cortante e Limpida



Difícil

cortante

límpida

incomparável

a alegria de madrugada

sinto-a a latejar nas mãos

o suor na ponta dos dedos

como um archote

a noite entornada no corpo

que olha pela tranquilidade do teu sono

do ruído cá dentro já não se ouve nada

a não ser o silencioso rosto vergado pela insónia

e o barco de papel

onde viaja o sonho

e as palavras sempre marítimas

as palavra que observam

que florescem como rosas nocturnas

que abraçam e transportam

que respiram dentro de ti

que iluminam

que esmagam

queimam e baptizam

que te batem nas têmporas

destroem a máscara

e alimentam a matéria do poema

são essas palavras

as evidências lunares no corpo

aberto em cruz

e o vermelho dos olhos

como um farol por dentro das pálpebras

difícil

cortante

límpida

e incomparável luz

6 de julho de 2012

Não Peças Desculpa

Abbas Kiarostami


Pelas algemas lunares

pelo incomensurável peso do mar

pelo sal nos olhos

pela cinza na pele

pela insónia que dá à costa do corpo

pelo pássaro sem asas

devastado pela rebentação

pelo coração irregular

pelo medo de perder

o que nunca possuíste

pelas mãos que tremem

no sono convulso

sob as nascentes do sonho

a água musical da vida

pelos anjos que se assomam á janela

dessa casa nocturna

e batem nos vidros da memória

e partem os vidros

e deixam ferida

a vida em fúria indefinida

de punhos cerrados

e olhos fechados

o grito que fica

na mínima partícula

da palavra justa

e pelo gesto desajeitado

não peças desculpa

se não podes alterar o curso do vento

o gotejar do silêncio

na lenta sombra do tempo

nem o sentido

do sentido


2 de julho de 2012

Liquidos II

"Der Himmel Uber Berlin" - Wim Wenders



A água do mar

lágrimas da humanidade

que a natureza transforma

em azul, verde, negro

e em branco de espuma

nos teus braços

roupa de anjos

rasgada em pedaços

29 de junho de 2012

Um Modo de Chegar

Ben Gosseens



Comunico-te

aquilo que descobri

tenho tudo

e tudo me falta

além da faca

com que rasgo a madrugada

a caneta

com que pinto e com que sangro

neste oficio de atar

as águas, às letras e

abrir o coração do mar

como um fruto em chamas

surpreendido

pela combustão de sua árvore

assim soubesse eu iluminar-me

e sonhar-te adequadamente

desde a raíz.


21 de junho de 2012

Viagem

Iman Maleki 


Fecham-se as pálpebras

para que o mar se abra como uma janela

quebram-se os vidros na tempestade do sonho

a casa oscila

navega

palpita nos braços das ondas

a casa são dois corpos de cristal e bruma

unidos pelos astros

velas dos altos mastros

esses lugares difíceis

em que se despenham os dias

e os enigmas no peito

 pássaros perdidos

que voam feridos

na viagem em que o poema

como um guindaste

me ergue até às tuas mãos

onde espreita a vasta claridade

na noite que sou.