19 de julho de 2012

Ouço os Ossos do Corpo

"Blue" - K. Kieslowski


Ouço os ossos do corpo

quebrados violentamente

no trabalho da aprendizagem

daquilo que não somos

a raíz do mundo cortada pela garganta

ainda canta

no começo da vida para lá da vida

não sei como dizer

a minha própria voz

ou como lá chegar

pelos meus passos

sei que nos atravessámos em desordem

uns nos outros

eu em ti como um cavalo assustado

pela rebentação das ondas

tu em mim

como nuvem efémera

na imensa transfiguração do azul .

13 de julho de 2012

Difícil, Cortante e Limpida



Difícil

cortante

límpida

incomparável

a alegria de madrugada

sinto-a a latejar nas mãos

o suor na ponta dos dedos

como um archote

a noite entornada no corpo

que olha pela tranquilidade do teu sono

do ruído cá dentro já não se ouve nada

a não ser o silencioso rosto vergado pela insónia

e o barco de papel

onde viaja o sonho

e as palavras sempre marítimas

as palavra que observam

que florescem como rosas nocturnas

que abraçam e transportam

que respiram dentro de ti

que iluminam

que esmagam

queimam e baptizam

que te batem nas têmporas

destroem a máscara

e alimentam a matéria do poema

são essas palavras

as evidências lunares no corpo

aberto em cruz

e o vermelho dos olhos

como um farol por dentro das pálpebras

difícil

cortante

límpida

e incomparável luz

6 de julho de 2012

Não Peças Desculpa

Abbas Kiarostami


Pelas algemas lunares

pelo incomensurável peso do mar

pelo sal nos olhos

pela cinza na pele

pela insónia que dá à costa do corpo

pelo pássaro sem asas

devastado pela rebentação

pelo coração irregular

pelo medo de perder

o que nunca possuíste

pelas mãos que tremem

no sono convulso

sob as nascentes do sonho

a água musical da vida

pelos anjos que se assomam á janela

dessa casa nocturna

e batem nos vidros da memória

e partem os vidros

e deixam ferida

a vida em fúria indefinida

de punhos cerrados

e olhos fechados

o grito que fica

na mínima partícula

da palavra justa

e pelo gesto desajeitado

não peças desculpa

se não podes alterar o curso do vento

o gotejar do silêncio

na lenta sombra do tempo

nem o sentido

do sentido


2 de julho de 2012

Liquidos II

"Der Himmel Uber Berlin" - Wim Wenders



A água do mar

lágrimas da humanidade

que a natureza transforma

em azul, verde, negro

e em branco de espuma

nos teus braços

roupa de anjos

rasgada em pedaços

29 de junho de 2012

Um Modo de Chegar

Ben Gosseens



Comunico-te

aquilo que descobri

tenho tudo

e tudo me falta

além da faca

com que rasgo a madrugada

a caneta

com que pinto e com que sangro

neste oficio de atar

as águas, às letras e

abrir o coração do mar

como um fruto em chamas

surpreendido

pela combustão de sua árvore

assim soubesse eu iluminar-me

e sonhar-te adequadamente

desde a raíz.


21 de junho de 2012

Viagem

Iman Maleki 


Fecham-se as pálpebras

para que o mar se abra como uma janela

quebram-se os vidros na tempestade do sonho

a casa oscila

navega

palpita nos braços das ondas

a casa são dois corpos de cristal e bruma

unidos pelos astros

velas dos altos mastros

esses lugares difíceis

em que se despenham os dias

e os enigmas no peito

 pássaros perdidos

que voam feridos

na viagem em que o poema

como um guindaste

me ergue até às tuas mãos

onde espreita a vasta claridade

na noite que sou.

20 de junho de 2012

Liquidos





Há uma diferença nas águas

magoam mais

as que dos olhos nascem ao luar

que podia morrer a ver o mar

Se o mar se deixasse matar


15 de junho de 2012

A Vertigem



da profunda moldura de certas manhãs

em que todos os que amamos

incandescentes surgem aos primeiros raios de sol

onde tudo é serenidade

e estremece a origem


11 de junho de 2012

Homeless





Poderia construir

na desmedida paisagem

que atravessa toda a inocência

um edifício

para nascer outra vez

onde me visses

desarrumado de aprumos

com as mãos salgadas

e a pele inacabada

a tentar vestir o corpo

inutilmente

porque não tenho roupas quando escrevo