13 de julho de 2012

Difícil, Cortante e Limpida



Difícil

cortante

límpida

incomparável

a alegria de madrugada

sinto-a a latejar nas mãos

o suor na ponta dos dedos

como um archote

a noite entornada no corpo

que olha pela tranquilidade do teu sono

do ruído cá dentro já não se ouve nada

a não ser o silencioso rosto vergado pela insónia

e o barco de papel

onde viaja o sonho

e as palavras sempre marítimas

as palavra que observam

que florescem como rosas nocturnas

que abraçam e transportam

que respiram dentro de ti

que iluminam

que esmagam

queimam e baptizam

que te batem nas têmporas

destroem a máscara

e alimentam a matéria do poema

são essas palavras

as evidências lunares no corpo

aberto em cruz

e o vermelho dos olhos

como um farol por dentro das pálpebras

difícil

cortante

límpida

e incomparável luz

6 de julho de 2012

Não Peças Desculpa

Abbas Kiarostami


Pelas algemas lunares

pelo incomensurável peso do mar

pelo sal nos olhos

pela cinza na pele

pela insónia que dá à costa do corpo

pelo pássaro sem asas

devastado pela rebentação

pelo coração irregular

pelo medo de perder

o que nunca possuíste

pelas mãos que tremem

no sono convulso

sob as nascentes do sonho

a água musical da vida

pelos anjos que se assomam á janela

dessa casa nocturna

e batem nos vidros da memória

e partem os vidros

e deixam ferida

a vida em fúria indefinida

de punhos cerrados

e olhos fechados

o grito que fica

na mínima partícula

da palavra justa

e pelo gesto desajeitado

não peças desculpa

se não podes alterar o curso do vento

o gotejar do silêncio

na lenta sombra do tempo

nem o sentido

do sentido


2 de julho de 2012

Liquidos II

"Der Himmel Uber Berlin" - Wim Wenders



A água do mar

lágrimas da humanidade

que a natureza transforma

em azul, verde, negro

e em branco de espuma

nos teus braços

roupa de anjos

rasgada em pedaços

29 de junho de 2012

Um Modo de Chegar

Ben Gosseens



Comunico-te

aquilo que descobri

tenho tudo

e tudo me falta

além da faca

com que rasgo a madrugada

a caneta

com que pinto e com que sangro

neste oficio de atar

as águas, às letras e

abrir o coração do mar

como um fruto em chamas

surpreendido

pela combustão de sua árvore

assim soubesse eu iluminar-me

e sonhar-te adequadamente

desde a raíz.


21 de junho de 2012

Viagem

Iman Maleki 


Fecham-se as pálpebras

para que o mar se abra como uma janela

quebram-se os vidros na tempestade do sonho

a casa oscila

navega

palpita nos braços das ondas

a casa são dois corpos de cristal e bruma

unidos pelos astros

velas dos altos mastros

esses lugares difíceis

em que se despenham os dias

e os enigmas no peito

 pássaros perdidos

que voam feridos

na viagem em que o poema

como um guindaste

me ergue até às tuas mãos

onde espreita a vasta claridade

na noite que sou.

20 de junho de 2012

Liquidos





Há uma diferença nas águas

magoam mais

as que dos olhos nascem ao luar

que podia morrer a ver o mar

Se o mar se deixasse matar


15 de junho de 2012

A Vertigem



da profunda moldura de certas manhãs

em que todos os que amamos

incandescentes surgem aos primeiros raios de sol

onde tudo é serenidade

e estremece a origem


11 de junho de 2012

Homeless





Poderia construir

na desmedida paisagem

que atravessa toda a inocência

um edifício

para nascer outra vez

onde me visses

desarrumado de aprumos

com as mãos salgadas

e a pele inacabada

a tentar vestir o corpo

inutilmente

porque não tenho roupas quando escrevo


30 de maio de 2012

Ponto de Fuga



Um dia desaparecerás como o fumo de um cigarro

consumido pela noite

ao silêncio pagarás tributo

serás só luz

e o ouvido para a pergunta de outros

que como tu se incendiaram de infinito.