17 de maio de 2012

Da condição do Coração que nas tuas mãos se desfaz

Chet



Fecham-se os olhos

para verem por dentro

as pálpebras cheias de mar

e a cabeça com mapas para nos perdermos

o coração devora o corpo

o peito estala em poemas

abre-se a pele á flor

que flutua acima dos astros

onde um dia aconteceremos

a matéria interna

desenha nitidamente

o impossível

a música

perfeita

profética

acorda a noite

com seus punhais crepusculares

laminas brancas

luzes de néon

violentas viagens

o sal na boca

à procura da água para adormecer de azul

uma paisagem de areia

onde brilham pequenos pássaros

como as estrelas da infância

o sonho a perder de vista

nas margens dos lábios

no inicio do teu rosto

uma praia

onde se desfia o meu corpo

pouco a o pouco

arde completamente

e nada mais será sombra.

10 de abril de 2012

Nuvens

Rainy Night in Soho - Pogues



Lá fora chovem letras

  a água dá forma ao poema

para além de qualquer ortografia

escreve sem erro

maiusculamente

na pele da cidade

no coração do mar

na vida que nos calhou

a chuva

não tem mais ambições que eu

cair

e ser outra vez das nuvens

Luz

"Some Came Running" - Vincent Minelli


O poema


surge por vezes nas alamedas da cidade

como um pequeno sol na noite

a lua

ilumina o peito do poema

aberto ao deserto do espelho

a palavra mostra o seu o rosto encurralado

um reflexo

que paira na negra vastidão do céu

palavra nenhuma

será dita depois do derradeiro gesto

e se procuras o vento inacessível

ele não está longe

minha irmã luzente

veste a imortal beleza

o sonho que do coração

regressa á melancolia musical

que não podemos cantar

por não sabermos a mar

a esperança é sal

um demónio vascular

no silêncio despedaçado

pelo grito

um abrigo infinito

uma praça devorada por flores

para onde fores

és sempre um homem nu

despojado de sombra

uma rocha que fala

uma onda que dança

na desolação da praia

fica fundo criança

como os animais inscritos na sua crosta

a rocha mais não é que um rosto acariciado pelo tempo

um grande livro

se souberes sorrir como as estrelas

nada mais serás que um pingo de luz.

4 de abril de 2012

Aperitivos



Michele Benevento


Justiça

Um político
foi apanhado com as calças na mão
apareceu em tribunal muito chocho
ás perguntas do meritíssimo juíz
disse não se lembrar de nada
socorreu-se dos melhores especialistas
que lhe passaram um atestado único
de disfunção erético-mental
foi absolvido



A Importância das Placas

Sentou-se na primeira mesa junto à janela
mandou vir as entradas
e um vinho tinto reserva kosher
era uma ocasião especial
depois pediu bife com costeletas
foi acusado de terrorismo gastronómico 
e posto na rua á tomatada
não reparou
que estava num restaurante vegetariano radical



Respeito

Por dentro estou viva
desabafou a estátua
no momento em que mais um pombo lhe cagava em cima
é para aprenderes a agir nos momentos certos.


Bolo Podre

Pátria
pão composto de cidadãos
migalhas amassadas até á exaustão



Consultas

Foi á consulta de oftalmologia
queixava-se de já não conseguir ver bem o infinito
o médico receitou-lhe vinho tinto.


Leia
dizia o médico
Poesia
fundo…………….
Prosa
fundo………
Ensaio
fundo………..
Já pode descansar
está tudo bem
mas tem de reduzir nos fritos
e evitar as gorduras
leia á base de saladas e frutas
e exercite-se
vá à livraria pelo menos duas vezes por semana


Cópulas

Chegou rapidamente ao orgasmo
tão rapidamente que nem teve tempo para soltar o seu imponente ah!!!
saiu-lhe um ah!zinho
e já tudo tinha terminado
a mulher irritada
fodeu-lhe as trombas duas vezes seguidas
deixando-o em êxtase profundo e silencioso.



Muito à Frente

Ainda respirava
quando publicou de uma vez só
todas as suas obras póstumas
era um génio da competitividade.

16 de março de 2012

O Céu que Resta

Frederic Delangle

  
Se os ossos amanhecessem na pele

                                                                                 
                                     abrindo-a aos grandes olhos do mundo

verias como o coração castiga o corpo

sem o matar

verias a palavra queimar a noite

curvar as plantas com o talento do vento norte

dar a luz perfeita aos objectos 

como o lençol branco que cobre a insónia

eis a minha casa

onde um animal trémulo habita estrelas sem nome

acidos rostos de mulher

acendem a via láctea

o meu corpo onde

danças fulminante

pastor fantasma das incertezas

como seguir-te uma vez mais

estou cansado como as folhas que caiem

e não se levantam mais

as tais que a geada devastou antes da colheita propicia

eis a solução

para distribuir o tempo pela vida

escrever uma única vez mas sem largar a caneta

o que vem nesse livro ?

dunas principiadas pelo vento brilhante

torres de sal e de pó

resíduos negros

animais crepusculares

um abismo pungente

por isso não te verei mais

lua prodigiosa

nem a ti liberdade

lamento o que te fiz

ao querer-te tanto algemei-te

ao meu sonho perturbado

perdoa-me se eu nem sabia sonhar

nem escutava, nem via

e o que sentia eram mastros sem navio

desejos tóxicos

o medo sujo

o corpo divido pela miséria da solidão

as tremendas hélices do abandono

de sermos sós no meio de tanta gente

depois chegava aquele comboio diário sem horário

e a lágrima que estremecia às primeiras horas da manhã

era um pequeno almoço de duvidosa qualidade

mas eu sabia

que era no centro da tempestade que tudo florescia

por um segundo divino

um espasmo intenso

um grito febril para fora

que dentro se multiplicava por mil

numa única sílaba

 ecos poderosos rachavam o peito

assim se abriam as janelas do destino

e o destino estava ali

nas minhas trémulas mãos

no sexo magoado

nos teus lábios húmidos

como a terra ancestral que me vedará os olhos

meu Amor

não é fácil a viagem

meu Amor

com facas dentro da noite

de invisiveis gumes 

verticais como rochosas escarpas

erva doce onde exaustos tombamos

como vos agradecer

pedras

ar

luar

as horas precipitam-se

na boca do tempo

surge um fogo delicado que não queima

as mãos que se dão

pequenas algas

dançam na translúcida lírica das marés

ofereço-tas em perfumado ramo

a ternura do dia é imensa

repara a lua não tem ruídos

só o mar acena

á cidade onde morreu a nossa infância

é uma gata caleidoscópica

esta bichana

com os seus gatinhos pelo braço

falemos deles

ou dos meus olhos alongados até ao precipício

vê como os estendo atabalhoadamente pelo linho dos dias

vê como é tarde para te oferecer estes frutos difíceis

ou um pouco de beleza comovida

a vida

sim que seja por ela que venderei tudo que possuo

vendê-la-ei por nada mais que isso

uma concha de beleza

uma casa definitiva

Porque talvez ainda tenha essa criança nas minhas mãos

é difícil saber

mas ainda ouço minha mãe dentro da minha cabeça

minha mãe a tua mão sobre os meus cabelos difíceis

minha mãe dispersa pelos astros

fonte dos afetos

que são só rastos

e o vazio que nos enche de desamparado

assim te vejo dançar ao longe

e de tanto te olhar

mar

tornei-me água

depois fiz um só poema

para lá de toda a destruição

e do extremo silêncio.

7 de março de 2012

Do Fogo



Ardo mal

escrevo mal

mas mesmo assim

a palavra

não queima devidamente o sonho

por isso sonho o sonho

do coração que bate como um poema

na folha de papel

onde ainda tremeluz

o sangue



29 de fevereiro de 2012

Assim te Abraço

Vladimir Kush


Até que o mundo seja outro vez mundo

assim te abraço

bebo café ou tomo chá

tanto faz

para todos os efeitos

somos luzes subterrâneas

plantas internas

oceânicas

com grandes percentagens de insónia

vê-se nos meus olhos

esse mar ainda

e os teus

nalguns pedaços de cinza

24 de fevereiro de 2012

Através das Palavras uma Flor Inútil – Um Relâmpago



Ao Bernardo Ribeiro Costa
11/09/1970 – 21/2/2012


Os dias acabaram

ainda a Primavera se aproximava

tímida mas já as suas flores negras

ameaçavam a matéria tão frágil de que somos feitos

terminava assim o sofrimento debaixo das altas copas do tempo

onde tudo é menos frio que o frio de estar vivo

quanto pesa a dor dos dias sem cor?

uma infinita milésima de grama

capaz de sufocar

e para que servem todas essas flores

que assinalam a negação de tudo o que pudesse ser?

a boca sedenta de esquecimento

aniquila todas as dimensões das coisas

para que o que exista caia

se parta se veja

se evapore

e depois desapareça para sempre

e porquê ?

e para quê estar aqui?

esperando um acidente que viesse misericordioso libertar a carne da sombra

mas ele não veio

e tudo ficou nas mãos dormentes do homem

afundado na penumbra da ultima madrugada

e se a morte não fosse um veneno que pudesse gritar teu nome

e se ela não fosse tão magnética

e se ela não te telefonasse dizendo que te amava

se não te beijasse completamente nessa noite extrema

o que sobraria de ti

horror do mistério

ultimo estertor

até que a vida se partisse contra o céu num soberbo mergulho

o corpo laminado pela angústia

o corpo sem pele….

o corpo rasgado pela noite….

ó mãe ajuda o teu filho

não o deixes adormecer

não deixes que o seu sangue acabe antes do teu sangue

ó mãe não deixes porque a tua dor será infinitamente maior

e servirá apenas

para adoçar a fétida pestilência da morte

que dá á terra este rosto com os olhos abertos para dentro

desce com ele o sonho já sem nenhuma ansiedade

nessas mãos ausentes que acolhem

a treva que passa e liberta da sepultura

de um corpo morto a alma pura.