20 de maio de 2011

Junto à Praia



Junto à praia

a palavra tomava banho

o sal da sua boca dizia

a memória que a atravessava

essa luz marítima da infância

que pontificava o horizonte com ritmos de azuis e verdes

as nuvens de rosto quase humano

devoravam sílaba a sílaba o céu

lentamente imaginavam o infinito

uma alegria breve

adormecia o corpo

depois o coração

subia alguns degraus para ver o mar estoirar.


11 de maio de 2011

"Starry Night Over The Rhine" - Vincente V. G.


A pele recolhe o amor na sua fonte

a verdade segura-o com a mão aberta onde

a água entardece prodigiosamente

arde a chuva como flor na noite humana

arde a terra que é a pele do mundo

arde a palavra no dizer desse fogo

talvez a palavra

seja o sonho que voa

quando se apagam os olhos da cidade

e se escrevem milagres na paisagem

límpida e absoluta da noite.

15 de abril de 2011

Quando a Noite

Antony Gormley

Quando a noite calmamente se enfurece

contra os lábios de madrugada

e cega a tudo dá com as suas luminosas mãos

o pão que espera o silêncio da boca

assim como a verdade o impede de ser outra vez seara

a voz trabalha a luz do silencio

nestas páginas que dizem

o salário mínimo dos amantes

migração dos corpos recebidos noutros corpos

como um grande país de liberdade

relâmpagos regulares acendem

a carne como uma guitarra pura

que de espuma

cintila por dentro

do coração

o mar

que através de mim

te canta.

18 de fevereiro de 2011

Aqueles Cujo Coração


foto: Josef Koudelka 


Aqueles cujo coração abre e fecha

Como as flores ao toque da chuva

Poderiam ser do céu um pormenor de nuvem

Ou a sua arritmia


O vento é a transparência completa do corpo


9 de fevereiro de 2011

Pedia-se ao Corpo


Pedia-se ao corpo um deserto

para instalar o coração

ultimo reduto onde se poderiam expor

à tempestade todos os órgãos

cujos pormenores

são rajadas de lâmpadas cadentes

estremecendo como estrelas nocturnas

a treva pura incorporada na pele

onde ardiam folhas

a chuva fazia o seu ninho

e adormecia

7 de fevereiro de 2011

Montanhas

"Last Days" - Gus Van Sant


 Os amigos como montanhas

cujos abraços pensamos serem a nora do nosso coração

quando á mesa cavamos o alimento para a memória

para que dela se escape um sorriso cheio de letras

desfraldadas como flores são no papel

a incandescência do poema

é sobre essas letras acesas

que se cruzam os dias apagados

e a noite com os seus dentes cravados na pele nua

seria preciso outra roupa para cobrir o corpo despido pela sua ausência.

1 de fevereiro de 2011

Lugar

"Stromboli" - Roberto Rossellini


Para corpo se contorcer em borbotões de espuma

Contra a água particularmente brilhante

Dividindo a pele suspensa no sopro da memória

e a altiva crispação das vagas

sacudindo os órgão até á extremidade da boca onde são palavras.

23 de dezembro de 2010

20 de dezembro de 2010

Por Outro Lado a Sombra

"Caramel" - Nadine Labaki

Por outro lado a sombra
Contrapeso dos ossos e da carne com os seus nós de marinha avisada do mau tempo
o nojo e a insónia para cortar à dentada
o tempo aberto à boca da desolação
poderia ser uma praia para escorrer a palavra errada
carícia penetrante e funda por dentro
Se
alguma vez regressasses para seres quem sonhas ser
Compreenderias o luar partido pela cintura
E o país de clepsidras destruídas onde atravesso a rua como um gato marginal
As águas que surgem dos bolsos rotos das nuvens
Movem as sombras paralelas aos rostos
Alimentam a noite por dentro
veleiro breve e luminoso
baunilha
piano
fantasma e engrenagem
Sexo de espuma partida contra a praia sem nome e sem pressa
A pele exposta á evidência das horas inquietas
Digo ás minúsculas contracções do coração convém
O mais alto céu dos que se despem em flor e desassossego.




22 de novembro de 2010

Improviso


Hiroshi Teshigahara - "The Women In The Dunes"


Se morrêssemos de improviso

Atravessando todo o amor do mundo sem tropeçar em ninguém

E queimássemos as histórias que não existiram

Até que a verdade bastasse à boca

E as águas feridas dessem a sua dor

Como esmola á carne do esquecimento

Quanto encontraríamos de nós

E quanto sobraria para desaparecer

Até sermos eternamente

Um.