18 de fevereiro de 2011

Aqueles Cujo Coração


foto: Josef Koudelka 


Aqueles cujo coração abre e fecha

Como as flores ao toque da chuva

Poderiam ser do céu um pormenor de nuvem

Ou a sua arritmia


O vento é a transparência completa do corpo


9 de fevereiro de 2011

Pedia-se ao Corpo


Pedia-se ao corpo um deserto

para instalar o coração

ultimo reduto onde se poderiam expor

à tempestade todos os órgãos

cujos pormenores

são rajadas de lâmpadas cadentes

estremecendo como estrelas nocturnas

a treva pura incorporada na pele

onde ardiam folhas

a chuva fazia o seu ninho

e adormecia

7 de fevereiro de 2011

Montanhas

"Last Days" - Gus Van Sant


 Os amigos como montanhas

cujos abraços pensamos serem a nora do nosso coração

quando á mesa cavamos o alimento para a memória

para que dela se escape um sorriso cheio de letras

desfraldadas como flores são no papel

a incandescência do poema

é sobre essas letras acesas

que se cruzam os dias apagados

e a noite com os seus dentes cravados na pele nua

seria preciso outra roupa para cobrir o corpo despido pela sua ausência.

1 de fevereiro de 2011

Lugar

"Stromboli" - Roberto Rossellini


Para corpo se contorcer em borbotões de espuma

Contra a água particularmente brilhante

Dividindo a pele suspensa no sopro da memória

e a altiva crispação das vagas

sacudindo os órgão até á extremidade da boca onde são palavras.

23 de dezembro de 2010

20 de dezembro de 2010

Por Outro Lado a Sombra

"Caramel" - Nadine Labaki

Por outro lado a sombra
Contrapeso dos ossos e da carne com os seus nós de marinha avisada do mau tempo
o nojo e a insónia para cortar à dentada
o tempo aberto à boca da desolação
poderia ser uma praia para escorrer a palavra errada
carícia penetrante e funda por dentro
Se
alguma vez regressasses para seres quem sonhas ser
Compreenderias o luar partido pela cintura
E o país de clepsidras destruídas onde atravesso a rua como um gato marginal
As águas que surgem dos bolsos rotos das nuvens
Movem as sombras paralelas aos rostos
Alimentam a noite por dentro
veleiro breve e luminoso
baunilha
piano
fantasma e engrenagem
Sexo de espuma partida contra a praia sem nome e sem pressa
A pele exposta á evidência das horas inquietas
Digo ás minúsculas contracções do coração convém
O mais alto céu dos que se despem em flor e desassossego.




22 de novembro de 2010

Improviso


Hiroshi Teshigahara - "The Women In The Dunes"


Se morrêssemos de improviso

Atravessando todo o amor do mundo sem tropeçar em ninguém

E queimássemos as histórias que não existiram

Até que a verdade bastasse à boca

E as águas feridas dessem a sua dor

Como esmola á carne do esquecimento

Quanto encontraríamos de nós

E quanto sobraria para desaparecer

Até sermos eternamente

Um.

27 de setembro de 2010

Pedaços

bill-viola-6-17-08.jpg
Bill Viola - "The Fall Into Paradise"


Pedaços de doçura
bátegas de água fina
luz dos olhos
cascata de alegria precipitada sobre os filhos
deitados ao comprido da vida
põem-se a escorrer poemas
gota a gota
desfraldam-se do âmago de suas mães
nascem para o primeiro dia do mundo
ressoam nas profundas cavidades do amor
depois crescem violentamente para outras mulheres
são o vento que movimenta o coração da palavra
ao abrir-se em espelho na pele mordida pela serpente da melancolia
antes da terrível dor do esquecimento
mergulhada na noite transfigurada
e quando se diz transfigurada quer-se dizer
onde o falso lugar deixou a cara pútrida
a memória desossada
que bate na areia
bate na cabeça e no ouvido do coração
bate para escutar a profundidade do mar
canta suavemente debruçada sobre as algas
rodilhas na maré alimentada pelo sonho
pequenos seixos translúcidos
feixes de luz semeados pelo vento
fios de sal
tinta de pintar navios ardentes
estruturas perplexas onde florescemos
tão esplêndidos
tão frágeis…

13 de setembro de 2010

O Corpo das Palavras















Paul Cezzane - "Nature morte avec rideau et pichet fleuri"



As palavras elevavam-se à altura dos olhos
para desvendarem o verdadeiro coração das coisas
eram crianças desembrulhados de suas mães
no nevoeiro da sua juventude
as cordas da ausência
magoavam as velas do velho barco
e o seu corpo cheio de naufrágios
era o areal onde podíamos beber da nossa fonte
a água secreta
uma linguagem que mais não era
do que o pensamento desenhado no ventre emocional
um poema encharcado de verdade consubstanciada
se ao menos a pele trespassada fosse um caminho
ou um abismo que se abismasse
e com as coisas mais inesperadas
perguntasse
e se elas fossem boas e brilhassem
como laranjas habitadas de Primavera.




7 de setembro de 2010

Chuva

Don Hong-Oai - "After Prayer"




Perfurávamos o papel branco

para que a palavra doesse ao impacto da boca

e a língua num firmamento de astros

fechada saísse para a rua

para gritar o trabalho fundo do poeta

certamente não sabíamos ainda dize-la

mas poderíamos encontrá-la

em cigarros de linho incendiados pelo sonho

ou na nuvem onde o olhar um dia

encontrou a luz da ínfima alegria

na chuva.