14 de julho de 2010

O Lugar Preciso

Chen Bi Cong - "Sleeping Nude XV"


Poder-se ia dizer

que se a língua fosse o lugar preciso de todos os silêncios

seria como um coração fechado para obras

o degrau que sobe para a noite a escadaria do seu bater.

29 de junho de 2010

Este Coração que Escreve

Paulo Nozolino


Este coração que escreve

não é um passo afundado na garganta do esquecimento

este coração é a elipse e o trompe l`oeil

uma catedral barroca de ardente sinfonia

é a mão que embala o sangue e forma o rio da palavra

é o peixe no branco oceano

onda de papel essencial

o peixe letra talhado pela melancólica caneta

este coração que escreve

é uma máquina queimada pelo sonho

uma gota de suor na máscara do homem que pensa

a nuvem que salga o mar de azul

sendo uma constelação de água que escorre silente

é também a raiz cujo peso é somente firmamento onde 

uma borboleta de estrelas movimentando-se nos dedos

um trabalho delicado na paisagem vulcânica

bisturi sobre o corpo das palavras rebentadas no verbo

a carne dividida pelo estremecimento da voz

exclama a terra anoitecida

balança musical onde

este coração é osso crepuscular do tempo

um relógio cantante desalojado de seus ponteiros

calendário á procura do teu rosto

alastrado pela ausência.

21 de junho de 2010

Condição Humana



"Estudos Sobre o Corpo Humano" - Francis Bacon

Pressupõe-se fotográfico o pincel da memória
mas o homem que fortifica com o seu próprio sangue
a trave mestra da sua casa
abre o coração do quarto
onde escureceu e floriu
e da sua própria ternura
luminosa terra
grita um corpo coberto pela melancolia da palavra.

Nos seus ombros duas lâmpadas
pérolas de néon
para abrir caminho ás águas
olhos
que foram antes o futuro e a carne finita
da condição humana.

18 de junho de 2010

Os Dias



"Pai e Filho" - A. Sukorov

Os dias
como pedras ardentes
pequenos embrulhos silenciosos no patamar do tempo
avisos nocturnos
películas onde oscila claramente uma ideia
a estrada até aos teus amigos é um voar de falcões estelares
e morcegos diurnos que amparam os braços sem corpo
deflagrado pela impaciência da madrugada
uma cabeça como um chicote vital para o acordar
a voz das coisa desaparecidas
é um jardim primordial com flores absolutas.

8 de junho de 2010

Atada ao Coração



Aniello Scotto - "Ecce Homo"

Atada ao coração a palavra
esconde-se nos finos cordéis do tempo
o mar salpica lentamente o horizonte
as unhas da noite enfurecidas
aparafusam a ultima fímbria de luz
ao peito da lua
a caneta violenta volta a abrir a carne do verbo
o meu único oficio
para uma vida mais digna

Só um Relâmpago Queimaria Aqueles


Fernando Lemos - "Auto-retrato"

Só um relâmpago queimaria aqueles
que brevemente atravessaram a tua boca
como cães brilhantes surgiriam no extremo da lua cheia
onde a porosa água que ilumina a pele
é a brancura da escrita que desfaz os nós
e a letra caligrafada nos espelhos terríveis
cordas de virar páginas para nos decifrarmos melhor
é então que apetece á tempestade o instante mais fulgurante
a cidade esticada no limite dos que sonham a sua vertigem
tinhamos então
não duas mãos
mas uma fogueira para ardermos juntos.

21 de agosto de 2009

Sol...



Um desastre não é mais que um pedido de desculpas ao destino
talvez obsceno de tão evidente
uma desolação que precede a alegria da flor beijada pelo sorriso da chuva
com a sua pequena boca estruturante
não é uma questão de palavras o que já está escrito
nem de gestos o que já não se pode sentir
um desastre torna mais inteiro o que foi destruído
no comércio das perdas
o jogo dos vidros partidos
é a mais importante janela para o sol.

20 de agosto de 2009

Micro Sol





Trago um micro sol na algibeira
e prometo cometer um crime com ele
aquecer o teu corpo com um coração a válvulas trágicas
algo do tipo leite-creme a escorrer pelas virilhas
com sorte conseguiremos um macro orgasmo
e ficamos mais inteiros para o desastre



Cá dentro morde-se consideravelmente o amor

17 de agosto de 2009

Pão


Palavras
In disiveis
In visíveis
In terditas
um
numero
um
nome
uma alcateia de lobos luminosos
pela garganta adentro
Que posso fazer disperso por estas praças desordenadas
senão compor minha mãe outra vez
sou uma língua agitada com alguma sombra
ou uma máquina cantante no ofício das letras transbordadas
eu sou uma rigorosa paisagem de azuis
e por dentro dos passos brotados na brancura da noite
alguma tulipas faiscantes como peixes profundos
um objecto cortante para esquecer a tua voz
começa a cantar no ventre da teia contraditória
onde me encordoo
a cidade respira
e eu mastigo a cidade
com as suas poluições magnéticas
caminho sob os neons
sou uma laranja na neve urbana
não posso dizer que sou gente
mas alguém dizia que podíamos sobreviver
sem perder a palavra
alguém dizia os nossos rostos como ateliers sonoros
e eu acreditei
eu ouvia as frases atravessadas e regressadas desse sonho
era um acordar escrito no labor da pele aberta pela caneta furiosa
gotas de tinta para que seja outro espaço a nossa cama
um lençol para o equilíbrio dos afectos
tem de ser uma cama de astros
sofrida no descansar do corpo extenuado pelo silencio
que poderia acolher outro nome para o seu baptismo
por exemplo a musica substancial do verbo
ou a delicada alegria de um corpo por mutilar de medo
a agulha da insónia repartida pelas horas
teus dedos amor são a grande capital da verdade
o teu coração uma borboleta de açúcar
o trigo multiplicado
estremo a extremo
o Pão.